
Numa manhã ensolarada, Clara toma seu café da manhã com Roberto, seu marido. Estava tentando ignorar o fato de que ele andava um tanto esquisito, pensava na hipótese dele ter feito alguma coisa realmente preocupante. Andava tão preocupada e frustrada pensando nisso que chegou até a perder algumas noites de sono, sem contar os problemas no serviço que estavam enlouquecendo-a. E agora mais essa. Não sabia bem como poderia fazê-lo dizer o que tinha feito, uma vez que ela tinha certeza que ele realmente tinha feito algo. Ficou pensando uns instantes enquanto tomava seu suco. Ah, uma idéia! Papo furado! É! Aquela coisa de ficar falando de coisas que, como ela bem sabe, pouco importam para ele. Talvez assim ele se irritasse e falasse logo que estava com outra. Então, começou a pensar em algo extremamente desinteressante para falar e... O quê? Ela o observou com curiosidade. Ele estava estranhamente distante, olhando para a janela do apartamento. Um jeito meio distante demais para a infelicidade dela. Deveria estar pensando numa piranha qualquer, pensou. E em seguida olhou também na mesma direção que a dele, mas não viu nada que pudesse chamar sua atenção ao ponto de fazê-la crer que ele estava olhando para janela por interesse, e não porque estava absorto em pensamentos. Pensamentos pelos quais ela daria a vida para saber.
– Amor, você não sabe! – ela começou depois de concluir que os pensamentos do marido não seriam lidos através de telepatia – O capítulo final daquela novela foi um horror! Eu não acredito que eu desperdicei seis meses da minha vida para ver aquele final! A Estela não podia ter morrido, não podia mesmo. – ela finalizou com uma expressão de desapontamento totalmente forçado.
Roberto se limitou a colocar mais leite em sua tigela de cereal, em seguida voltando sua atenção para a janela novamente e respondendo:
– É, amor, deve ter sido um absurdo mesmo.
Ahn? Escutei bem? Clara, depois dessa, estava pensando se ainda podia confiar em seus ouvidos. Como assim ele concordou? Ele normalmente responderia dizendo que essas novelas não prestam e colocaria toda a sua arrogância em uma frase como: “Bem feito. Eu sempre falo para você não gastar seu tempo com essas porcarias, não falo?”. Clara mordeu os lábios em um misto de nervoso e curiosidade, alguma coisa estava realmente errada.
– Bom, deixando esse assunto de novela para lá... Você viu que estão faltando algumas coisas no armário, não é? Temos que ir ao supermercado.
Agora ela iria tentar novamente, mas com outra tática. Iria tentar algo mais incisivo, que certamente criaria uma briguinha costumeira. Talvez só assim ele falasse logo de uma vez.
– Aliás, amor, aproveitando essa coisa de supermercado... Eu queria conversar contigo de novo sobre aquele jogo de panelas que estava em promoção e você não quis comprar. Poxa! Você sabe que estamos precisando de algumas panelas. Algumas das nossas estão quase imprestáveis. Precisamos de outras! Sei que aquele jogo lá é um pouco caro mesmo em promoção, mas, pensa bem, melhor algo de qualidade e caro do que algo ruim e barat...
– Claro, amor. Vamos comprar. – Roberto a interrompeu, parando sua colherada de cereal no meio do caminho à boca.
Houve um momento de silêncio onde Roberto, ainda com a colher parada no ar, decidiu olhar para Clara uma vez que aquele silêncio lhe soava estranho. O que ele viu foi compreendido em instantes. Era óbvio que Clara não acreditou no que ele havia dito. O olhar perplexo dela não lhe deixava dúvidas quanto a isso. Então, ele calmamente terminou de levar a colher à boca e enquanto ainda mastigava, completou:
– Eu fui fritar um ovo ontem de manhã e o cabo da frigideira soltou. – ele a olhou com seriedade – Realmente, amor... Você estava certa. Nós precisamos mesmo de panelas novas. – finalizou engolindo o conteúdo que mastigava e em seguida desviou o olhar.
Depois de alguns longos instantes encarando Roberto com um olhar interrogativo, Clara percebeu seu silêncio e respondeu:
– Ah... É... Que bom que... Reconheceu isso. – respondeu pausadamente, enquanto seus pensamentos gritavam em conflito.
Como assim? O que poderia ter ocorrido? Aquilo era um sinal do apocalipse ou o quê? Não estava certo, o Roberto que ela conhecia nunca admitiria daquela forma o quanto estava errado. Aquilo tudo estava deixando-a cada vez mais preocupada. Se bem que pelo menos ele já não estava mais tão distante, ela pensou. Ou então o fato dele não estar mais distante era algo pior? Ele agora a olhava com uma expressão carinhosa. Carinhosa... Quem eu estou querendo enganar? Ele está me olhando com pena, pensando o quanto sou trouxa, ela pensou irritada. E então cutucou com um pouco de violência uma de suas torradas, e ponderou a hipótese de continuar a conversa. No fundo já estava se convencendo que só um chilique faria com que ele falasse o que havia feito. Mas ela considerou: se ela fosse extremamente amável e atenciosa, quem sabe ele não sentiria remorso e assim não confessava? Lá foi Clara, mais uma vez:
– Falando em panelas, há uns dois dias vi uma receita ótima em um programa. Sabe aqueeela torta de morango com calda que você adora? Estava passando uma receita de uma torta dessas, só que bem mais incrementada. Tinha chantilly e um monte de outras coisas que devem deixar a torta maravilhosa! E, sabe amor... Quando vi isso instantaneamente pensei em você, em fazer aquela receita para o meu amorzinho! – ela se levantou de sua cadeira e se aproximou de Roberto, fazendo um gesto, indicando que ele deveria afastar um pouco a cadeira onde estava sentado, da mesa. E assim que ele atendeu seu pedido, ela sentou-se em seu colo – O que você acha, amor? – ela finalizou cinicamente todo o seu teatro dando um selinho em Roberto que aparentou não perceber a farsa, se limitando a apreciar o beijo.
– Hum... Eu acho ótimo! – Ele a abraçou e em seguida abaixou a cabeça – A propósito... – Clara o olhou atentamente, só podia ser agora, essa técnica era mesmo infalível – Até que enfim você decidiu parar de tagarelar besteira e ser mais romântica, hein? Parece até que se esqueceu do nosso aniversário de 5 anos. –ele levantou a cabeça e a olhou nos olhos.
Clara franziu a testa enquanto retribuía o olhar. Estava um tanto aflita, ela realmente havia se esquecido totalmente disso. E em seguida, sem que houvesse chances para que ela começasse com mais pensamentos conturbados, Roberto expirou forte e continuou:
– Acordei pensando nisso hoje. Estava tomando café aqui e relembrando tudo o que passamos para hoje estarmos aqui, sabe? E nem foi só hoje não que andei pensando nisso tudo... Ando gastando bastante tempo com isso. – Roberto ficou uns instantes olhando para o nada enquanto Clara o observava, ele soltou um riso baixo e abafado, e prosseguiu - É... Acho que nunca fui tão feliz. Aliás, pensei tanto que tive até a idéia de viajarmos para comemorar. O que acha? – Roberto abriu um dos sorrisos mais puros e bonitos que Clara já pôde ter presenciado.
Nesse momento, Clara estava se sentindo a pior das criaturas enquanto amaldiçoava sua própria mente.
(Caroline Marques)
