quinta-feira, 5 de maio de 2011

O laço e o abraço




Meu Deus!!! Como é engraçado! Nunca tinha reparado como é curioso um laço... Uma fita dando voltas que se enrosca, mas não se embola. Vira, revira, circula e pronto: Está dado o laço.
Assim como um abraço: Coração com coração. Tudo isso cercado de muito braço.
É assim que é o laço: Um abraço no presente, no cabelo, no vestido, em qualquer coisa que faço.
E quando puxo uma ponta, o que é que acontece? Vai escorregando... devagarzinho... desmancha... desfaz o abraço.
Solta o presente, o cabelo. E na fita, que curioso, não faltou nenhum pedaço.
Ah! Então é assim o amor, a amizade, tudo o que é sentimento? Como um pedaço de fita?
Enrosca, segura um pouquinho, mas pode desfazer a qualquer hora, deixando livre as duas pontas do laço.
Por isso é que se diz: Laço afetivo, laço de amizade...
E quando alguém briga, então, se diz: Romperam-se os laços...
Assim é o amor... Não prende, não escraviza, não aperta, não sufoca.
Porque quando vira nó, já deixou de ser laço.

(Mario Quintana)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Insetos Interiores




Notas de um observador:

Existem milhões de insetos almáticos. Alguns rastejam, outros poucos correm. A maioria prefere não se mexer. Grandes e pequenos. Redondos e triangulares, de qualquer forma são todos quadrados. Ovários, oriundos de variadas raízes radicais. Ramificações da célula rainha. Desprovidos de asas, não voam nem nadam. Possuem vida, mas não sabem. Duvidam do corpo, queimam seus filmes e suas floras. Para eles, tudo é capaz de ser impossível. Alimentam-se de nós, nossa paz e ciência. Regurgitam assuntos e sintomas. Avoam e bebericam sobre as fezes. Descansam sobre a carniça, repousam-se no lodo, lactobacilos vomitados sonhando espermatozóides que não são. Assim são os insetos interiores. A futilidade encarrega-se de “mais tralos'. São inóspitos, nocivos, poluentes. Abusam da própria miséria intelectual, das mazelas vizinhas, do câncer e da raiva alheia. O veneno se refugia no espelho do armário. Antes do sono, o beijo de boa noite. Antes da insônia, a benção. Arriscam a partilha do tecido que nunca se dissipa: A família. São soníferos, chagas sem curas. Não reproduzem, são inférteis, infiéis, “infértebrados”. Arrancam as cabeças de suas fêmeas, cortam os troncos, urinam nos rios e nas somas dos desagravos, greves e desapegos. Esquecem-se de si. Pontuam-se A cria que se crie, a dona que se dane. Os insetos interiores proliferam-se assim: Na morte e na merda. Seus sintomas? Um calor gélido e ansiado na boca do estômago. Uma sensação de: "o que é mesmo que se passa?". Um certo estado de humilhação conformada o que parece bem vindo e quisto. É mais fácil aturar a tristeza generalizada que romper com as correntes de preguiça e mal dizer. Silenciam-se no holocausto da subserviência, o organismo não se anima mais. E assim, animais ou menos assim, descompromissados com o próprio rumo. Desprovidos de caráter e coragem, desatentos ao próprio tesouro...caem. Desacordam todos os dias, não mensuram suas perdas e imposturas. Não almejam, não alma, já não mais amor. Assim são os insetos interiores.

(Fernando Anitelli - O Teatro Mágico)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Notícias Populares




Tudo se acaba.
Olha o noticiário!
Água se acaba.

Se acaba a prece do vigário.
E eu quero ser a mendiga suja e descabelada dormindo na vertical.
Entender como a vida de alguém se acaba antes do final.

Prefiro Lou Reed do Velvet Underground.
Gosto de Silvia Plath, S.Eliot, Emily Dickinson, Lucinda, Délia, Manoel de Barros ficam eternos por mim.

Esqueço a crise da Argentina quebrando o pau com a menina no sinal, em castelhano, ê.
Eu furo os planos, ê, eu furo o dedo, mando vê, examinando, lanho o braço, aperto o passo. Não sou louca! É...

Tomei um tiro no vidro do meu carro.
É a pobreza tirando o seu sarro.
Foi meu dinheiro, foi meu livro caro.
Que façam bom proveito da grana que roubaram, porque eu trabalho e outro dinheiro eu vou ganhar.

Tomei um táxi, o motorista mexicano veio falando sobre o onze de setembro.
Havia um homem na calçada lendo o "Código Da Vinci" ou lia o código da venda?

E na parada havia um peruano cheio de badulaques, ô, vendendo Nike, ô, vendendo bike, Coca Light, canivete, aceita cheque pros breguetes.
Notícias do Iraque na Tv da lanchonete.

Notícias populares voam pelos ares.
E amanhã, meu nêgo, ninguém sabe, se alguém recua ou se alguém invade, se alguém tem nome ou se alguém tem fome.
Que façam bom proveito do pouco que restar. se tanta gente vive só com o que dá pra aproveitar...

Tudo se acaba.
Olha o noticiário!

(Ana Carolina)